Atentado em Munique. Eu estava lá (em Munique)

25 jul

Centro de Munique - Frauenkirche
Sobre o atentado em Munique… (Resumão no final, se quiser pula pra lá)
Não sei como estão as informações aí no Brasil, por isso vou explicar as coisas aqui e contar um pouco do que aconteceu com a gente também.
Bom, nós não moramos em Munique e sim a 30 km de Munique. As cidadezinhas mais próximas da gente é Erding e Markt Schwaben.
Nós recebemos visita de amigas lá de Jena e havíamos marcado com amigos em comum que moram lá em Munique de fazermos churrasco as 19:30 num parque, mas primeiro iríamos encontrar uma amiga que trabalha no bairro Schwabing. Saímos de casa às 17 e pouco e chegando em Munique Mario parou o carro para abastecer. Quando ele voltou ele já chegou falando: Teve atentado em Munique.
Eu tenho mania de negar tragédias. Eu ri e falei: Ah Mario, para com isso, com isso não se brinca!
“É sério, teve sim!”
Como? Quando?…

Eu estava querendo saber demais dele pois nesse momento as notícias tinham acabado de começar a pipocar e ninguém sabia direito o que estava acontecendo.
Mario queria dar meia volta e voltar para casa. Eu disse para ele que não era para se preocupar, pois não havia indícios que fosse atentando terrorista. O novo mandamento do IS é usar meios normais, coisas do dia a dia como armas e não uma arma de fogo e tal. Mas Mario insistiu que poderia acontecer mais coisas, atentados em várias partes da cidade e não queria ir mais ao lago de maneira alguma!
“Liga o rádio, vamos ver se tem alguma informação nova.”
E no rádio ninguém sabia muito bem o que estava acontecendo. Falavam de 5 homens armados que estavam em fuga. Mas as informações eram todas vagas.
Eu então combinei com o Mario que iríamos até o trabalho de nossa amiga e se eles quisessem ir para o parque mesmo, a gente voltaria para casa, mas disse que era provável que a gente fosse para a casa dela, e em casa está tudo bem.
Até nesse momento eu havia entendido que somente a linha de metrô que passa pelo shopping havia sido desativada. Mas não, todas as linhas de trens, metrôs e ônibus haviam sido desativadas. Ninguém entrava e ninguém saía de Munique a não ser que fosse de carro.
As pessoas andavam nas ruas olhando para o celular com olhares incrédulos. Depois de um tempo olhavam pra frente, como se estivessem olhando para o vazio. Logo começavam a olhar de um lado para o outro e novamente pro celular. Muita gente ao telefone andando olhando para um lado e para o outro apreensivas. Não chegamos a passar no meio do local onde havia pânico, mas dava parar ver o choque no rosto das pessoas pelas ruas…
Chegamos no trabalho da nossa amiga e ela ia demorar um pouco e como eramos muitas pessoas fomos esperar num café. Tirando o Mario que estava bem nervoso e preocupado com a Marina, acho que todas nós (mulheres, depois dizem que mulheres são histéricas, dramáticas e exageradas) estávamos de certa forma tranquilas. Claro que isso nos deixou apreensiva mas a sensação era que estavam floreando, ou melhor dizendo, ensanguentando demais a história.
Mas chegou um momento lá no café que as moças que estavam sentadas perto da gente nos recomendaram sair de lá com as crianças. Nós falamos que estávamos de carro e iríamos para a casa de uma amiga. E foi aí que ouvimos pela primeira vez histórias de que no centro houveram ataques paralelos também. Nesse momento começou a cair a ficha de que realmente poderia tudo ser bem pior do que pensamos e comecei a olhar para todo mundo lá dentro e lá fora como possíveis disparadores.
Saímos e fomos rápido até o trabalho da nossa amiga que fica ali pertinho. Estávamos a dois quilômetros e meio do acontecido. de lá fomos então para a casa dela que já ficava mais distante. As ruas estavam agora muito mais caóticas. Mas eu já nem olhava para a rua, ficava olhando para minha filha e para a filha da minha amiga que resolveu vir conosco no carro, e pedia a Deus para cuidar das duas.
De repente nossos amigos que estava no carro da frente pararam e nós consequentemente também paramos, Aí que eu percebi que as pessoas nas ruas estavam pedindo carona. Mario estava tão em choque que ele também não reparou conscientemente. Uma velhinha batia no vidro do nosso carro e Mario não reagia. Eu balancei o ombro dele e falei para ele abrir o carro e aí parece que ele saiu do transe e abriu o vidro, mas nossos amigos no carro da frente foram mais rápidos e deram carona para a senhora e o marido dela, no nosso carro só teria lugar para um ou outro e acho que eles ficaram felizes de poderem ir para casa jutnos. Quando estávamos chegando perto da casa da nossa amiga, veio um ônibus (não era linha da cidade, era ônibus interestadual) na direção contrária. Nossos amigos pararam o carro numa vaga e Mario tentou fazer o mesmo mas não havia muito espaço. Ficamos tortos numa pequena vaga. O motorista do ônibus não se importou em esperar a gente tentar arranjar espaço, tivemos que ficar parados e ele passou e raspou na nossa traseira. E aí foi uma confusão com o motorista com sotaque eslavo, mal falava alemão mas alegava que a gente havia dado ré, e que foi nossa culpa…
Em plena Munique num dia caótico e trágico, numa rua deserta, todo mundo fora do carro discutindo por causa de um esmalte descascado no pára-choque, enquanto (segundo as informações naquele momento) cinco terroristas corriam armados pela cidade. Cinco mulheres com duas meninas (1 ano e 7 anos) deixam os homens discutindo, entram numa BMW maravilhosa (da nossa amiga Jaqueline) e fazem o resto do percurso sem eles no melhor estilo brasileiro. Eu sentada atrás no meio com a cadeirinha do carro da Marina no colo e a filha da dona do carro sentada no colo da nossa amiga Rea, a Teresa do meu lado espremidinha tadinha e a Renata na frente dando as coordenadas de como chegar na casa dela por outro caminho que nem ela mesma conhecia muito bem, já que a rua estava interdidatada com aquele ônibus gigantesco que mal cabia nela…
Agora vocês entendem de onde vem o humor negro dos filmes europeus?
Depois disso tudo chegamos na casa da nossa amiga Renata. E aí me dei ao luxo de finalmente começar a ficar nervosa e a tremer.
Não voltamos para a casa, já que não sabíamos quais ruas estavam interditadas, dormimos por lá mesmo.

— Resumindo agora os fatos—
Não haviam nem 5, nem 3 atiradores, foi um rapaz só, de origem iraniana, nascido na Alemanha. Havia polícia a paisana no local do tiroteio e as pessoas viam os policiais armados e pensavam que fossem terroristas.
Não houve nenhum outro tiroteio no centro da cidade, a polícia parou os meios de transporte público e cercou o centro procurando “pelos atiradores”. Houve apenas um caso a mais, pois o rapaz que atirou foi parar num estacionamento e um morador de um prédio próximo começou a discutir com ele e soltar xingamentos racistas. O rapaz completamente atordoado gritava indignado dizendo que ele era alemão, que ele nasceu na Alemanha e era alemão. Há notícias que apesar das raízes iranianas ele tinha tendências neonazis, de extrema direita, mas não se pode associar o caso como nem crime terroristas nem crime de extrema direita. O rapaz tinha problemas psiquiátricos e já havia sido internado em uma clínica. Isso me lembrou bastante o caso do piloto da Germanwings que se suicidou levando bastante gente consigo. Parece que está na moda entre os suicidas não querer morrer sozinhos.
Ontem teve um caso de um homem refugiado que matou uma mulher grávida com um facão, ao que parece eles tinham um relacionamente, mas ainda não li nada que confirmasse essa hipótese.
Ontem a noite um rapaz refugiado sírio, no norte da Baviera tentou entrar num festival onde se encontravam cerca de 2.500 pessoas e foi impedido por não ter bilhete de entrada. Ele então se explodiu do lado de fora e deixou 12 pessoas feridas, mas nenhuma corre risco de perder a vida. O rapaz morreu na explosão. Ainda não dá pra dizer se foi um atentado terrorista, já que o rapaz também esteve em tratamento psiquiátrico. E no caso dele, ele já tinha passagem na polícia por tráfico de drogas. Pode ser um atentado terrorista ou um cara que viu o caso de Munique e se encheu de coragem para fazer seu próprio atentado. Em algum jornal eu li hoje sobre pesquisa nos estados Unidos que apontam que por conta da cobertura midiática nesses casos de atentados sem implicância política ou religiosa, é de se esperar que outros que se interessam por isso mas ainda estão indecisos em fazer ou não, tomem coragem e façam também. Logo após um atentado desses pode se esperar que num intervalo de tempo de duas semanas outros em maior ou menor escala ocorram…

 

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: