Terrorismo na Europa

20 jan
Momentos após o ataque ao Charlie Hebdo

Foto: Thierry Caro

Antes de começar a discursar sobre os efeitos do ataque terrorista à revista semanal satírica francesa Charlie Hebdo é interessante primeiro tentar entender o que é terrorismo e como seus ataques são, mais que atos violentos, uma maneira de passar uma mensagem.

Terrorismo: Um conceito político

Erra quem associa o terrorismo  automaticamente com fanatismo religioso islâmico. Terrorismo é um conceito político, usado pela primeira vez para descrever o sistema de regime de terror durante a década de 1790, após a Revolução Francesa. Alí nascia o terrorismo de Estado que se caracterizava no fortalecimento do poder do novo governo através da repressão dos grupos contra-revolucionários. Sim, as cabeças rolavam soltas nas guilhotinas francesas. Estima-se que cerca de 40 mil pessoas foram guilhotinadas no regime de Robespierre e seu grupo, inclusive os próprios ao fim do seu regime.

A característica básica de terrorismo que o define como tal, pode ser considerada resumidamente como um ato de violência para se atingir um determinado objetivo político. A maior parte de ataques terroristas do século XX foram coordenados por grupos não religiosos, como o grupo separatista irlandês IRA, o grupo separatista basco na Espanha ETA, e o grupo de extrema esquerda alemão RAF.

Terrorista e mensageiro

Um terrorista é antes de tudo um mensageiro, seu ato é sempre além de violento, simbólico. Justamente por isso que geralmente após um atentado (no caso do Charlie Hebdo, durante a sua execução), o grupo que o organizou se manifesta para defender seu direito autoral no ataque. Analisando os  principais atentados desde o início deste século dá para perceber o nível de simbologia na qual se transformaram os atos terroristas.  Se no século XX os terroristas sequestravam embaixadores, miravam em presidentes e chefes de estado, o século XXI é marcado pelo terrorismo público.

Os ataques ao World Trade Center mostram claramente essa característica de terror como uma forma de mensagem aos Estados Unidos revelando ao mundo a vulnerabilidade da maior potência mundial. Os ataques de 11 de março de 2004 em Madrid foram  ataques públicos, às vésperas de uma eleição, como uma forma de forçar a opinião pública a mudar de governo. O espanhóis já vinham descontentes com o envio de soldados espanhóis ao Iraque. O ataque atingiu seu objetivo, o governo mudou e o partido socialista assim como o seu líder, Zapatero, assumiram um país traumatizado pelo terrorismo, dessa vez não o causado pelo grupo separatista basco ETA e sim pelos fundamentalistas islâmicos. O próprio ETA se pronunciou afirmando não ser responsável pelos ataques.

Terrorismo e Religião

Entendido que um ataque terrorista é antes de qualquer coisa um atentado político, fica então a dúvida: Por que então se fala tanto em terrorismo associado aos Islã? Simples: Os atentados mais recentes vem de grupos que fazem o uso leviano de susas interpretações religiosas com o fim de atingir seu objetivo político de chegar ao poder com o exercício da força. Esse tipo de terrorismo não é novo. Já há dois mil anos, cerca de 60 a 70 anos d.C., um grupo judeu chamado Zelot lutava contra o domínio do Império Romano em Israel. Eles eram exímios no uso de uam pequena espada. Seus alvos eram geralmente pessoas ligadas ao governo e judeus que eles consideravam traidores da pátria. Seus ataques ocorriam preferencialmente em praça pública, pois já naquela época, um ataque precisava de público. Todo fanatismo religioso pode levar ao uso da violência embasada na fé com o objetivo de se tomar o poder. Aconteceu entre os cristãos já no século XVII nde um grupo de católicos planejavam a morte do rei Jaime VI e da câmara dos Lordes para colocar em seu lugar sua filha Isabel, de apenas nove anos e restaurar assim um governo católico. Um exemplo mais atual do terrorismo cristão é o moviemento Ku Klux Klan no século XIX nos Estados Unidos. Nos Estados Unidos inclusive existe até hoje um grupos organ que se organizados que atacam clínicas de aborto e médicos que executam o aborto. O caso mais famoso é o do médiceo George Tiller que foi assassinado em 1993 por um fundamentalista cristão. Tantos outros movimentos religiosos poderiam ser citados aqui. Isso só demonstra que o uso da religião para se justificar o uso do terrorismo é mais comum que se imagina e pode ser usado por qualquer grupo.

Charlie Hebdo e o caso da Nigéria

E o Charlie Hebdo? Bom o ato terrorista contra a revista satírica francesa foi encarada pelo mundo como um claro atentado à liberdade de expressão. Se paramos para pensar que a liberdade de expressão é m pílar básico na estrutura democrática das principais potências ocidentais, é então claro entender a lógica do mundo ocidental em relação a esse ataque.

Mais que isso, esse ataque revela o quanto o mundo ainda é eurocêntrico. No mesmo dia em que 12 pessoas morreram em Paris, a capital da liberdade, igualdade e fraternidade, cerca de 2.000 pessoas morriam na Nigéria devido ao ataque do grupo terrorista islãmico Boku Haram, segundo dados do jornal britânico The Guardian.  Um número de mortos correspondente aos do ataque de 11/09 em Nova Yorque. Porém esse ataque foi pouco difundido pela mídia. Para os noticiários um ataque no meio de Paris tem mais valor de notícia do que um ataque lá na África, que já é um continente de miséria, de conflitos, de violência. Um ataque terrorista na África não surpreende ninguém. Mas será que está correto pautar o jornalismo naquilo que jornalistas e empresas de notícia consideram mais interessante, relevante e surpreendente para seus leitores? Não dá apara esquecer que jornal, seja impresso ou seja na TV, faz parte antes de tudo de uma empresa, empresas querem lucros, querem vender. Então é mais fácil investir em notícias que vendem. Afinal quem se interessa com a África e que diferença vai fazer para a vida de alguém no ocidente saber que na 2.000 pessoas morreram num ataque na Nigéria, que inúmeras mulheres foram violentadas e que uma população saiu em êxodo por milhas em milhas na esperança, de chegar nos Camarões vivos, com o mínimo de violência sofrida e que seu país vizinho, os abrigasse? Mais fácil se solidarizar com os franceses e postar #JeSuisCharlie em todas as mídias digitais para não ficar fora dos trends.

*Artigo escrito originalmente para o jornal A Notícia do Caparaó para a edição do dia 16/01/2015

*Camilla Saloto é formada em Ciências da Comunicação e História da Arte pela Universidade Friedrich-Schiller em Jena, e é mestre em Artes Visuais pela Universidade Bauhaus em Weimar, ambas na Alemanha. No Bacharelado Camilla Saloto se especializou no estudo do terrorismo. No mestrado ela se especializou na arte da colagem e fotografia. 

*Vários conceitos e dados transmitidos nesse artigo foram retirados de trabalhos de especialistas em terrorismo como Bruce Hoffman e Paul Wilkinson. É possível pesquisar mais sobre os autores e suas obras na Internet. Elas revolucionaram a maneira acadêmica e política de se tratar o tema.

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