Dica de cinema – Oh Boy

28 nov

ohboyO cinema alemão tem se mostrado bem eclético. Entre obras de Til Schweiger e Matthias Schweighöffer, campeãs de bilheteria – seguem geralmente o gênero comédia romântica americano, onde os dois (Pasmem!) são sempre os gostosões da história nos seus filmes e pegam geral – há ainda espaço para filmes feitos para degustadores da mais fina obra visual, nós cinéfilos do cinema que foge das massas -o que é uma pena pois esses filmes mereciam ser campeões de bilheteria.

O filme que eu quero indicar para vocês é o “Oh Boy“. Uma comédia dramática com uma história simples, corriqueira: Um estudante de direito, Niko Fischer, que vai estudar em Berlim e acaba se perdendo no meio da metrópole. Abandona os estudos e se arrasta pela vida. Algo comum de se ver entre estudantes que vão para Berlim, uma cidade que oferece tantas possibilidades culturais e de lazer.

Você pode se perguntar: Por que ver um filme com uma história tão sem conteúdo?

A resposta é tão simples quanto o enredo do filme: O interessante dele não é “do que ele fala” e sim “de como ele fala”.

A começar o filme é em preto e branco. Parece que depois que diretores como Michael Haneke lançarem filmes em preto e branco – “Das Weiße Band” – outros diretores resolveram se jogar nas possibilidades estéticas que o monocolor oferece -“Frances Ha” é um outro exemplo de filme recente. No caso de Haneke o preto e braco cabia no conceito do filme por apresentar uma pequena vila no período anterior à Primeira Guerra Mundial. O universo monocromático ofereceu uma intensidade maior nos conflitos apresentados na trama desse diretor.

O Artista“, do francês Michel Hazanavicius também clamava por essa estética preto e branco, por uma questão de suporte estético da história.

Em “Oh Boy” a  escolha do preto e branco foi por mim interpretada como uma visualização subjetiva do personagem. Viver em Berlim para ele não era uma festa. Em determinado momento, quando seu pai o indaga sobre o que ele fez durante dois anos sem ir a universidade Niko responde: Pensando. Pensando no sentido da vida. 

Essa postura é muito bem encenada, ja que Niko pouco conversa com os outros personagens, ele mais escuta e quando fala, fala contidamente. Você imagina o que o jovem pensa através da sua maneira de falar, e também das suas reações. Ele funciona muito mais como um sujeito passivo dentro do filme com poucos momentos de atitude própria.

Outro detalhe interessante é que apesar de Niko ser o personagem principal, ele tem uma função narrativa de guiar-no, o público, para que conheçamos os outros personagens. Interesante é que, através dos outros personagens, às vezes conhecemos mais do próprio Niko. É assim no encontro dele com a ex-colega de classe que foi gordinha. Alí ela conta a história dela e ao mesmo tempo revela como Niko foi causador do bullying que ela sofreu e que por causa dele ela quase cometeu suicídio na adolescência.

Através do pai dele, se vê que Niko vem de uma família abastada. O clichê do senhor rico jogando golf é apresentada de forma bem humorada causando a sensação de vergonha alheia às vezes.

Também o tema da Segunda Guerra Mundial é contada na versão de um velhinho que Niko encontra num bar. Ele fala de sua infãncia, naquela rua onde ficava o bar, em pleno nazismo. Ele questiona Niko sobre a atitude dele na infância de apedrejar a loja de um judeu, onde hoje funciona o café, e Niko responde politicamente correto com um: “Na visão de hoje em dia”. O velhinho rebate dizendo que naquela época não tinha a “visão de hoje em dia” e vai uma história cômica, mas emocionante que nos leva a desfazer de preconceitos e embarcar numa Berlim da década de 30 onde tudo que uma criança em seu universo queria era andar com sua bicicleta. Tudo sem efeito, sem flashback, só Niko e o velhinho no balcão do café.

Falando em café é interessante ressaltar que o filme se passa em um dia, e durante esse dia inteiro Niko tenta tomar café e não consegue. O café abre e fecha a narrativa. Ou seja, o filme mostra um humor típico alemão, irônico e que remete a reflexão. O tor Tom Schilling fez um trabalho deslumbrante nesse filme. É uma delícia ve-lo atuar!

Enfim, essa é minha dica de filme para você que não liga quando o filme acaba e você fica com aquela cara de tacho: “Uai, acabou?”.

Oh Boy

Direção e roteiro: Jan-Ole Gerster

Elenco:

  • Tom Schilling: Niko Fischer
  • Marc Hosemann: Matze
  • Friederike Kempter: Julika Hoffmann
  • Justus von Dohnányi: Karl Speckenbach
  • Katharina Schüttler: Elli
  • Arnd Klawitter: Phillip Rauch
  • Martin Brambach: Jörg
  • Andreas Schröders: Psychologe
  • Katharina Hauck: Café-Verkäuferin
  • Ulrich Noethen: Walter Fischer
  • Frederick Lau: Ronny
  • Steffen Jürgens: Ralf
  • Michael Gwisdek: Friedrich
  • Robert Hofmann: Pascal
  • Inga Birkenfeld: Hannah

Produção: Marcos Kantis e  Alexander Wadouh

Kamera: Philipp Kirsamer

Música: The Major Minors e Cherilyn MacNeil

Edição: Anja Siemens

Uma resposta to “Dica de cinema – Oh Boy”

  1. Maxx Seiler (@MpontoSeiler) 30/11/2014 às 11:18 am #

    olá escrevi uma resenha sobre o filme também. Gostei muito do filme
    http://cineseiler.blogspot.com.br/2014/11/oh-boy.html

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