Sobre o aborto

2 dez

Uma pequena pausa nos temas sobre Alemanha, para expor aqui uma pequena reflexão…

Esses dias eu estava vendo as atualizações de perfis no facebook e me deparei com uma foto lamentável, que provavelmente deve ser fruto de Photoshop. Se tratava de um bebê jogado em um local parecido com as margens de um rio, com o cordão umbilical ligado a placenta, morto. Em legenda estava escrito algo parecido com isso: “Depois que nasce você não tem mais coragem de matar.”
Uma foto e uma frase impactante e sensacionalista, extremista assim como se tornam as visões a cerca desse tema, a cerca desse tabu.
Eu aqui quero falar do aborto sem esquecer o fato de que eu sou uma cristã, uma pessoa que acredita em Deus e na Bíblia (por mais que muita gente me questione por esse fato, mas essa é a minha fé assim como tantas outras que existem), mas que procura seguir os principais mandamentos deixados por Jesus como o amor e o respeito ao próximo,  principalmente aquele que fala “Não julgueis para não seres julgados”.
Quando eu era menina (e pequena como até hoje) ouvia um ou outro dizer que fulana cometeu um aborto, num tom de julgamento e um sorriso disfarçado tentando se desenhar naqueles lábios, aquela maldade que habita em qualquer um de nós. Na época eu não entendia o que era isso. Depois de crescer (na verdade ficar mais velha) e descobrir do que se tratava, eu sinceramente não entendia porque as pessoas falavam dessas mulheres como criminosas, apedrejando-as com palavras. Eu na verdade sentia compaixão. Sentia solidariedade. Sentia tristeza por essas mulheres que por algum motivo tiveram que se submeter a isso. Ninguém está na vida dessas mulheres para julgá-las.
Pode ser diferente? Pode! Minha mãe mesma recusou me abortar quando meu pai falou para fazer isso. Ela encarou uma gravidez solteira, numa cidadezinha do interior do Espírito Santo onde a diversão geral era sentar na calçada e o assunto era a vida alheia. Eu imagino o quanto ela deve ter sofrido por sua coragem de ser pãe, de ter uma filha e apresentá-la com orgulho diante de toda a sociedade. Portanto pode ser diferente.
Mas talvez nem todas as mulheres tenham essa coragem. Aliás, o que é coragem, afinal? Coragem e medo andam sempre se esbarrando nas fronteiras. Acredito que as mulheres que optam pelo aborto não são covardes, mas também são corajosas de entrar numa clínica clandestina e se submeter a um ato que pode levá-las até a morte. O medo de serem julgadas ou o medo do futuro as leva a enfrentar um medo ainda maior: O da morte. Afinal uma sala de aborto é uma sala de morte, morte do bebê e morte da mãe daquele bebê. Essa mulher pode até sobreviver mas a mãe da criança abortada não.
Se elas se julgam, se condenam, se arrependem desse ato depois, eu acho que isso vai da consciência de cada uma. Eu pessoalmente acredito que eu nunca cometeria um aborto, porque para mim um filho é uma herança de Deus, é algo abençoado que vem iluminar a vida da gente e nos ensinar a enfrentar novos desafios. Mas a minha posição não me dá o direito de querer obrigar que 100% das brasileiras pensem como eu. E por isso sou a favor de que se legalize o aborto, justamente por saber que quem quiser fazer o aborto o faz seja clandestinamente, seja legalmente. Mas legalizar o aborto assim não é o suficiente. Perguntei ao meu marido como a questão do aborto é tratada na Alemanha e ele até me mostrou onde estava a questão do aborto na lei. Simplificando, o aborto na Alemanha pode ser considerado legal, porém é burocrático. Para que uma mulher cometa o aborto primeiro a gravidez tem que estar bem no início. Segundo ela precisa ouvir a opinião de um médico. Apenas se o médico lhe der uma certidão permitindo o ato, é que a mulher então pode cometê-lo. Ou seja, não é um oba oba do tipo “sou dona do meu corpo, eu que decido e o resto que se dane!”.
Como é o modelo que os defensores do aborto no Brasil defendem? Não seria esse um modelo interessante para o Brasil?Eu acredito que, além de legalizar, ou antes de legalizar o aborto, seria interessante evitar de alguma forma que uma mulher, muitas vezes uma menina, chegue a esse ponto de querer cometê-lo.
Pelo que eu sei (ou penso que sei), para se fazer um aborto em uma clínica clandestina, é necessário pagar uma boa quantia. Ou seja, é preciso ter dinheiro para se fazer o abortoe isso não é coisa que moça pobre possa fazer, não é mesmo?! Então o aborto é também um reflexo social brasileiro (essas são palavras de uma leiga no assunto, feitas aqui também por puro achismo). Seguindo esse raciocínio, acho que a questão vai muito além do papinho feminista que a mulher deve ter controle do seu corpo. Entra em todos os âmbitos de sociedade que vende a imagem de liberal pro exterior com suas mulatas semi nuas no carnaval, mas que no fundo está arraigada num conservadorismo, enraizada em julgamentos cegos, caretas e preconceituosos.
Por uma questão de igualdade social, a moça pobre também deve ter a possibilidade de interromper uma gravidez, seja lá o motivo que for. Ter a possibilidade de fazer algo não significa que se vai fazer.
Portanto, mais que um caso de saúde, a questão do aborto é um caso social, familiar. A mulher deve ter apoio da familia, de amigos e de todos que estejam a sua volta para que o aborto não aconteça. Uma adolescente que sabe que tem pais compreensíveis, que não vai ser julgada e condenadapor todos por ser mãe solteira e adolescente, essa mesma menina não vai sentir a necessidade de arriscar a sua própria vida e tirar a vida do seu próprio bebê.

 

PS: Clique aqui para ler o parágrafo 218a do Código Penal alemão (Strafgesetzbuch) que trata sobre a temática do aborto.

8 Respostas to “Sobre o aborto”

  1. Andrea Pires 02/12/2011 às 9:16 am #

    Bem, eu sou a favor por vários motivos. Entre eles, a própria preservação do ser humano. Pode parecer absurdo, mas não existe nada pior na vida do que você nascer sendo odiado pela tua própria mãe, que nunca te quis. Acho um ato de bondade e amor você abortar um filho que (não vou entrar nos meritos se nao queria usasse camisinha, pilula, etc) que você não quis e que você não será capaz de amar. E vai deixar por aí pra “vida ensinar” o que é viver e trazer mais um ser humano amargo pra sociedade.

  2. Camilla Caju 26/12/2011 às 12:22 pm #

    Eu tbm sou Camilla, tb sou pequena,tbm gosto mto da Alemanha e estudava Alemão, tb sou cristã,tb tenho um blog, tb era pra ter sido abortada, e tb fui criada por uma mãe solteira, com mtas dificuldades. Quanta coincidencia! Gostei mto do texto! Parabéns! Mas não gosto dessa ideia de abortar etc, pq afinal, eu estou aqui e se a minha mãe tivesse feito o aborto eu acredito q mtas chances teriam sido desperdiçadas e com todas as dificuldades q a minha mãe passou para me criar, e mesmo com todas as falhas dela por ter sido mãe “antes da hora” e coisa e tal, ainda assim eu acho que valeu a pena! As coisas não acontecem por acaso! Deus sempre tem um propósito, msm para as mães q nem tem consciência do q fazem por aí… Não julgo quem faz aborto, pq cada um sabe das dificuldades que passa… mas o aborto em si, não me agrada.

    • Camilla Saloto 01/01/2012 às 5:24 pm #

      A mim também não xará😉
      Gostei do seu blog, nome muito espirituoso, tem twitter? Me segue que eu te sigo também😀

  3. Paula 12/06/2012 às 10:14 am #

    Olá Camila, estava procurando assuntos sobre aborto na Alemanha e cheguei aqui no blog.
    Bom, acabei de descobrir que estou gravida de +3 semanas e tenho um bebe de 9 meses. Estou pensando seriamente em abortar. Nao sei se terei condicoes financeiras e psicologicas de cuidar deste segundo bebe. Moro na Alemanha, me mudei para ca quando estava de 8 meses. Tranquei a faculdade no Brasil, larguei um bom emprego para morar aqui com o meu marido. Tenho medo do que as pessoas vao dizer se souberem do aborto. Mas acredito que é o melhor a fazer neste momento. Vejo meus medos vindo a tona, os mesmos medos da primeira gestacao. Quero voltar a estudar e assim garantir um futuro bom para o meu filho, para que ele nao tenha que ser dado para adocao como eu fui por falta de recursos financeiros.

    Me sinto melhor por ter desabafado aqui. Obrigada.
    Paula

  4. lindaLú 01/08/2012 às 12:27 am #

    Penso que uma mulher tem total direito de escolher se deseja ou não ser mãe,sobe qualquer circunstância como por exemplo essa descrita acima,pois a vida está sendo gerada dentro do seu ventre portanto ainda não podemos tratá-la como cidadã.É fácil dizer que todas as criança têm direito a vida mas a mãe tem direito e dever de decidir oque fazer nesta etapa da vida que deveria ser encarada como uma fase positiva se ela não se sente preparada talvez se sinta frustada e com isso prejudicaria essa relação mãe e filho.Tendo direito pelo seu próprio corpo cabe a mulher decidir qual caminho deverá tomar se sentir influência de uma sociedade machista onde a vida da mulher era resumida em maternidade e afazeres domésticos hoje a mulher é profissional,tem planos,tem interesses,responsabilidades,sonhos e não deve jogar tudo pro alto por conta de uma gravidez indesejada,sou a favor do aborto nas primeiras semanas da gravidez,por que se ele for cometido muito tarde pode trazer consequências irreparáveis a mulher e a criança,se a lei também defendesse o ato abortivo com certeza haveria muito menos mulheres morrendo em clínicas clandestinas sobretudo mulheres pobres ,tentado evitar que seu bebê passe fome e utras tantas dificuldades,tamanha hipocrisia do governo que desaprova o aborto mesmo sabendo que ele é feito em toda a parte do país e que por ser clandestino,ilegal acaba sendo caro e mal feito colocando em risco a vida de garotas adolescentes,mulheres pobres e de qualquer classe social.

    • Ana Isa 22/09/2013 às 12:39 am #

      Tamo junta (sic)

  5. Cida Roque 26/07/2013 às 3:35 am #

    Muito bom seu texto. Esclarecedor, limpo, sem julgamento, lúcido. Abracos!

  6. Ricardo 03/12/2016 às 2:43 am #

    Muito bom esse comentário. Falou e disse. Proibir é muito fácil. Não se falando mais no tema ( problema) ele deixa de existir. Num mundo ideal, talvez, mas no mudo em que vivemos não é assim não. Há que haver uma educação e preparação para evitar uma gravidez indesejada, o que já diminuiria o número de abortos e a grávida tendo um acompanhamento durante e depois da gravidez também já diminuiria muito o número de abortos, ou como se diz na Alemanha, gravidez interrompida. Não acredito que alguma mulher faça um aborto de boa vontade.

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