Alemanha e o exótico

21 abr

Eu recebi um flyer que fazia propaganda de uma exposição de reptílias. Por mais que essa exposição de animais como se fossem coisas gere controversas entre os defensores da natureza, eu na verdade acho interessante do ponto de vista educacional trazer isso para crianças verem de perto esses bichos que muitas vezes só veem em figuras dos livros.

Mas a maneira de se referirem ao evento foi  o que me incomodou. Répteis Exóticos. Eu não gosto da palavra exótico. Na Alemanha, como eu posso imaginar a Europa num todo e Estados Unidos também,  ainda existe essa mania de que tudo o que sai das fronteiras da Alemanha é exótico, diferente e muitas vezes inaceitável. Eu me pergunto, como o povo alemão que mora num país tão internacionalizado, como a Alemanha, que é um dos países da Europa que mais recebe estrangeiro principalmente por causa da área acadêmica, pode ainda manter um tipo de pensamento desse.

Exótico é tudo aquilo que é desconhecido, estranho, diferente. Mas cá para nós, o termo parece ter tomado outros rumos no decorrer do tempo. Hoje com os meios de informação cada vez mais velozes, com as possibilidades de ir para o exterior com mais facilidade (os alemães são o povo europeu que mais viaja para o exterior. Um alemão normal sempre “faz férias”.) eu não entendo ainda como alguém pode dizer que algo é exótico.

Eu tenho a impressão que na Alemanha ainda existe uma visão colonialista que se pode comparar com os parâmetros da  época das grandes navegações (calma, eu sei que a Alemanha não participou das grandes navegações) até a colonização da África. Quando a câmera de filmar foi inventada pelos irmãos Luimiéres,  vários Europeus e americanos saíram em viagem pelo mundo desconhecido documentando o que viam. Geralmente pediam para que as pessoas nos países encenassem alguma festividade ou ritual. Quando apresentavam o seu material esse era recebido com surpresa, estranheza frente às maneiras dos “não civilizados”, muitas vezes até nojo.  Isso era o exótico e essa idéia de estranheza, desconforto e selvageria diante do desconhecido parece continuar de maneira contundente. O outro é e sempre será o estranho, o anormal, o diferente. Isso parece estar arraigado ao pensamento coletivo e não há tempo que seja capaz de tirar isso da cabeça deles.

Não me interpretem mal. Eu acredito que sempre existirá essa coisa de identidade coletiva, afinal isso é imprescindível para a sobrevivência de uma cultura e de um povo. Se você chegar por exemplo numa tribo de índios daquelas bem isoladas, com certeza para eles sua maneira de ser vai ser vista como exótica, como diferente, mesmo que eles não tenham essa palavra no vocabulário deles. Mas o que me estranha é mesmo um povo com uma visão de mundo tão ampla como o alemão querer propagar essa idéia colonialista do exótico.  Isso é, na minha opinião um retrocesso. Enquanto o “outro” for visto como exótico, estranho, desconhecido, problemas como o da integração na Alemanha vão apenas persistir.

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