O poder da bunda chega a Alemanha

20 abr

Meu tio está para lançar um livro de crônicas e contos. Esses dias ele me mandou um texto entitulado “O poder da Bunda” e eu dei um feedback honesto, afinal, se tem uma coisa que eu aprendi a fazer na universidad na Alemanha foi dar feedbacks…

Mas olha o que acontece quando a gente é sincera:

Por Adilson Saloto

“O Poder Da Bunda” chega à Alemanha.

Outro dia enviei um texto para minha sobrinha que estuda jornalismo na Alemanha. Eu esperava um elogio, mas a “pirralha” leu rapidinho e me disse que eu abuso muito das orações subordinadas, o que dificulta o entendimento do leitor.

Bem! Antes de qualquer coisa, quero confessar que eu sinto uma grande inveja por ela ser bem mais nova que eu e já ter visitado toda a Europa enquanto eu nunca saí do Brasil, a não ser aquela vez que fui ao Paraguai. Mas Paraguai não conta, é como sair de casa para ir ao quintal.

Estávamos conversando pelo MSN. Ali a conversa é rápida. Quem demora a responder é considerado lerdo no raciocínio, e eu não podia perder para aquela molequinha que ajudei a tomar conta quando ela era somente um bebê.

Tomado por uma revolta instantânea, eu quis dar uma resposta à altura da insolência dela. Mas nessa hora as máquinas do meu cérebro pararam de trabalhar. Parecia que suas peças estavam enferrujadas, até pensei em chamar um mecânico.

– Orações Subordinadas! Quem ela pensa que é? – resmunguei.

Forcei a mente tentando lembrar de alguma coisa dos tempos de faculdade: cerveja, purrinha, bailes, Lúzinha, hum saudade! Não! Não! Gramática, gramática… Orações, orações…

As únicas coisas que vieram a minha mente que se podia associar à palavra “oração” eram: “livrai-me do mal” e “amém”. No impulso, comecei a digitar a primeira opção. Depois deletei. Percebi a tempo que embora fosse tudo que eu pedia naquele momento, aquilo não faria sentido para a minha sobrinha.

Pensei então em procurar alguma resposta no Google, mas iria demorar demais. De repente, tive uma ótima idéia. Se eu desligasse o computador e depois dissesse a ela que a minha conexão da internet havia caído, eu teria tempo de consultar tudo que eu quisesse e onde eu quisesse e então dar a ela uma resposta que a colocasse no seu devido lugar.

Meu indicador já fazia cócegas no botão da CPU quando as catracas das minhas enferrujadas máquinas cerebrais deram uma girada me presenteando com uma grande sacada com a qual eu respondi na lata:

– É por elas serem subordinadas mesmo que eu posso abusar delas. E manda elas reclamarem pra ver!

Vocês precisavam ver a cara de mau que eu fiz nessa hora.

O fato é que essa resposta não somente não a colocou no seu devido lugar como a fez crescer na briga. No outro dia recebi a seguinte crítica dela:

***

“Tio! A linguagem do texto está jovem, entusiástica, despojada e ao mesmo tempo intelectual.

Todavia eu tive a impressão de que no início do texto você tinha uma coisa em mente para escrever:

“Na verdade esse texto é sobre as condições humanas num tempo de tecnologias avançadas e empobrecimento do espírito. (…) Mas tenho certeza de que se eu colocasse esse título, pouquíssimas pessoas iriam ler meu texto. Sabendo disso, resolvi por a bunda na conversa, porque se tem uma coisa que chama atenção, é a bunda.”

Mas depois foi se empolgando com as outras linhas de raciocínio e a condição humana no tempo de tecnologia não ficou bem clara, o que resultou em um encerramento de texto assim:

“E, com a televisão, os jornais e a internet nos bombardeando bundas o tempo todo não sobra muito tempo para o que realmente nos evolui: informações, conhecimento e desenvolvimento.”

Uma dica que caberia muito bem numa crônica como essa é a leitura de Marshall McLuhan, um teórico da comunicação que analisa tudo que o homem usa pra se expressar como um meio (roupa, radio, telefone, televisão etc) . E vê dessa forma o meio como continuação do ser humano. E no seu texto o ser humano se restringiu tanto ao admirar da bunda ao ponto de você poder afirmar que o meio passou a ser uma continuação não do ser como um todo, porém sim da parte do corpo para o qual ele mais se concentra: a bunda.

Como disse antes, a linha textual está excelente, a leitura flui de maneira espontânea. Só essa frase do começo que trouxe um pouco de incoerência ao texto, coisa que um leitor mais desatento que eu não iria perceber.

Ai, acho que agora você vai escrever uma crônica querendo me matar. Hahahah

Beijinhoooooo!”

***

– Marshal Mcluhan, Ta bom! Alguém tem o telefone da mecânica?

_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _

Detalhes importantes a serem considerados:

*Eu não viajei a Europa inteira, falta de tempo e de dinheiro para isso😉

*Queria muito me lembrar do meu tio tomando conta de mim, mas só consigo me lembrar dele me segurando pela fralda da sacada do segundo andar da varanda da minha vó (ta, eu adorava!), dele quebrando minhas colherzinhas de plástico, dele colocando pimenta no meu café (tomo café desde a barriga da minha mãe) e coisas do tipo hahahah

*Eu não estudo jornalismo mesmo, mas Ciências da Comunicação e Ciências Fílmicas

*Estávamos conversando pelas mensagens do Facebook

*Morri de ri com o texto dele!!!!

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