Choque Cultural – Peixe fora d’água

12 abr

Choque Cultural

Tantas coisas mudaram na minha vida desde o dia 7 de dezembro de 2006, quando eu pisei pela primeira vez no solo alemão. Ao chegar no aeroporto de Frankfurt naquele dia eu não imaginava que seria pra valer. Não imaginava que estava deixando uma Camilla para trás para passar a construir uma nova Camilla! Tanta coisa mudou de lá para cá. E não me refiro apenas ao fato de ter me casado, de morar na Alemanha. Mas falo da maneira como o mundo passou a parecer um lugar que por mais variedades que apresente, é ao mesmo tempo tão igual.

Qualquer pessoa, que sai do seu país e vai para um outro, principalmente quando não se conhece muito bem o que o espera, sofre um choque cultural. Isso é fato! Por mais mente aberta que você seja, você nunca vai estar livre do calcanhar de Aquiles! Um ponto fraco você com certeza tem e esse ponto fraco vai te levar ao choque. E às vezes é um ponto fraco que nem você mesmo antes sabia que existia. Eu acho isso tão paradoxo e ao mesmo tempo contagiante, o fato de a diferença nos tornar iguais.

A sensação do choque cultural pode variar. A minha foi desgastante. Começou com a televisão. No Brasil eu quase nunca assistia à televisão, estava sempre na internet. Mas a TV lá em casa ficava o dia todo ligada, na maioria das vezes sem alguém realmente assistindo. Era um hábito.

Na Alemanha, eu e meu marido pensamos em tudo. Casa, geladeira, microondas etc. Porém, depois da casa montada veio a sensação de que algo faltava. La maledetta! Comprei e comecei o zapping. Mas logo me desiludi. Tirando poucos documentários na TV ou jornais 24 horas, um ou outro filme, eu não conseguia prender minha atenção. Primeiro por entender quase nada do que se falava la. Segundo por ter uma base sócio-cultural e também política muito pobre. Meu conhecimento de Alemanha se restringia a Carlos Magno, Martinho Lutero, a escola de Frankfurt (Matéria de Comunicação), Freud, Nietzsche etc e um pouco da Segunda Guerra. Só, pronto. Então não fazia idéia de quem eram os políticos, as celebridades (essas até hoje eu desconheço em grande parte)… Enfim a televisão só serve hoje para quando eu quero variar o local de ver DVD.

Esse silêncio da Alemanha me deu nos nervos logo no começo. Não ter barulho, não ter visita chegando a toda hora, não ter com quem realmente conversar, não ter uma igreja, não poder correr pro colo da mãe quando algo dá errado, não poder me comunicar claramente, tudo isso dava um nó na minha garganta o que me deixou passar perto de uma depressão. Aguentei o tranco por dois anos, quando percebi que se não fosse visitar minha família no Brasil eu iria ter um treco.

Voltei ao Brasil. Mas para minha surpresa eu não consegui me reafirmar como a Camilla que saiu de lá dois anos antes. Por incrível que pareça eu sofri um choque cultural no meu próprio país. Minha mãe mora perto de um barzinho onde o pessoal vai e fica até de madrugada tocando e cantando, isso em dia de semana. Tanto barulho, tanta falta de respeito com o próximo nesse sentido, aquela poluição de Vila Velha, a péssima logística da cidade que resulta em um trânsito congestionado, o medo de sair andando pela rua tendo que se preocupar a todo tempo  se alguém pode pegar sua bolsa, se tem alguém te seguindo, se essa ou aquela rua não seria deserta demais, se essa ou aquela pessoa parece suspeita… Todos esses medos, essa insegurança e até mesmo preconceito que nos torna escravos de uma realidade insana que para nós é quase imperceptível quando se está dentro dela.

Voltei para Alemanha de certa forma aliviada, de certa forma transtornada. Não tive o encontro comigo que esperava ter. Senti-me uma estrangeira no meu país assim como me sentia e ainda me sinto uma estrangeira na Alemanha. Mas isso foi muito importante para mim. Eu perdi uma identidade coletiva, mas ganhei uma identidade que eu acredito que poucas pessoas tem: Ser um ser independente de raízes, um peixe fora dágua não importando onde eu esteja.

18 Respostas to “Choque Cultural – Peixe fora d’água”

  1. Roger Sedlacek Fibiger 12/04/2011 às 2:46 pm #

    Muito bom o texto, Camilla!!

    • Camilla Saloto 12/04/2011 às 2:48 pm #

      Fico muito grata Roger. Com um blog sobre um outro país e uma outra cultura me surpreendo por não ter escrito sobre algo tão óbvio antes!
      Volte sempre🙂

  2. Vera 12/04/2011 às 5:22 pm #

    Há poucos dias comecei no twitter e seguindo o Brasilalemanhanews encontrei esse blog e achei muito interessante. Casei com um alemao e em maio de 2011 completo 2 anos na Alemanha. Sou formada em História e no Brasil trabalhava como professora dessa disciplina. Agora estou estudando alemao, nao precisava em termos, mas decidi, pelo fato de estar vivendo aqui e querer me comunicar e integrar. Fiz o curso de integracao como muitos estrangeiros fazem que vai até o nível B1 e abrange tb um pouco de Política e consegui esse primeiro certificado. Mas nao parei e retornei a um curso de alemao, o B2, alemao nao é fácil, mas tenho que continuar e tentar mais, estou entendendo um pouco mais, mas ainda falta muito para entender muito bem. Tenho 2 pequenos trabalhos que aqui chamam de Job como Servicekraft em uma Clinica e num Restaurante, na maioria das vezes no final de semana. Corri atrás desses trabalhos para ter mais contato com o mundo alemao, com os alemaes, para perder o medo, sair do isolamento, quero dizer, nao ficar só em casa ou somente da casa para o curso de alemao e tendo contato somente com outros estrangeiros como eu, treinar meu ouvido a escutar e entender o que os alemaes querem. Outra coisa, os alemaes que conheco percebem meu interesse e valorizam, acham importante eu trabalhar e eu quero trabalhar e fico até constrangida de nao trabalhar, eles perguntam o que eu estou fazendo, vou dizer, “estou em casa sempre sem fazer nada”, sinceramente tenho vergonha, no Brasil eu trabalhava, todos devemos trabalhar , essa é a minha opiniao. Nao é o trabalho dos meus sonhos, mas ninguém comeca no topo. Estou vendo para depois outras possibilidades, ainda nao sei bem o que, acho que como professora de História como eu era no Brasil é difícil. Tenho 2 blogs, o primeiro que criei fala é uma espécie de diário da minha vida na Alemanha e o segundo é sobre a língua alema, mas osu muito crítica e preciso melhorá-los, no momento eles estao meio largados. Mas gostei desse blog, se puder gostaria de colaborar e interagir tirando dúvidas. Aguardo um contato. Atenciosamente VMS.

    • Camilla Saloto 13/04/2011 às 2:24 am #

      Vera querida, muito obrigada pelo recado. Essa fase inicial é mesmo difícil. Eu tb procurei esses mini jobs pois me sentia envergonhada por só ficar em casa. Eu ainda lhe aconselharia a depois fazer um mestrado. Dá um pouco de trabalho com td a papelada do Brasil e tal, mas é extramamente válido vivenciar uma cultura acadêmica. La vc tem q se expor ainda mais, falar em público, ler muito, escrever. Nao é fácil, mas conforme vc for vendo seus progressos, vc vai tb o quanto é gratificante. Seria uma honra tê-la como colaboradora!!!! Vc me segue no Twitter? acha la o @misskess e me dá um toque pra eu te seguir de volta e a gente troca idéias!
      Liebe Grüße,
      Camilla

  3. Roberto 12/04/2011 às 9:47 pm #

    Minha experiência como brasileiro, apesar de nunca ter deixado o pais, tem sido exatamente essa nos últimos anos, misto de frustração e decepção com o que aqui acontece, não obstante o sabido, cantado e louvado potencial do pais; fico me perguntando se vale a pena criar filhos que queiram continuar por aqui, sei lá… Muito legal o artigo!

    • Camilla Saloto 13/04/2011 às 2:29 am #

      Oi Roberto, pois é, a situacao da criminalidade no Brasil parece uma avalanche, fica cada vez maior e nao há tempo bom que detenha. Eu acredito que a única maneira de salvar esse país é investir numa educacao de base (pública) e permitir que esses meninos e meninas que podem ser potenciais criminosos tenham uma perspectiva de vida fora da realidade do narcotráfico. A educacao é extremamente importante em uma cultura, mas no Brasil parece que o governo até hoje nao se deu conta disso. Aí tem-se esse resultado: Um país com uma economia aquecida, mas com uma maioria que nao sabe o que fazer com ela.
      Muito obrigada pelo comentário, volte sempre ao blog e quando cogitar em vir pra Europa nao deixe de passar na Alemanha😉

  4. Ingrid 14/04/2011 às 10:48 am #

    Acabei de visitar seu blog e o adicionei ao “Mundo Pequeno”. Qualquer dúvida pode entrar em contato.
    http://www.mundopequeno.com

    bjos

  5. Larysse Pacheco 17/04/2011 às 11:16 am #

    Hoje é domingo e agora que tive um tempinho p/ navegar com paciência pela net. Estava lendo seu post Milla, muito bacana, supersensível! Quando vc chegou na Alemanha eu estava saindo do ensino médio e começando um novo mundo de descobertas, nem pensava em estudar alemão, estava muito envolvida nos estudos p/ o vestibular, apesar de ter sido o ano da copa do mundo de 2006 na alemanha,a única coisa que me lembro era dos meninos reunidos na biblioteca assistindo os jogos e a única palavra que aprendi foi “TOR”…rsrsrs… Só fui ter contato com esse idioma por acaso lá na universidade, inicio de 2007, pensei que estavam oferecendo aulas de inglês,mas era alemão..rsrsr…acabei ficando e gostando até hj…
    Mas penso que só comecei a me interessar pelo idioma depois que fui conheçendo um pouquinho do País,da sua cultura, das pessoas, vendo imagens, videos e etc…E é ai que vc entra, seu blog faz parte disso tudo, me ajuda muito a ter esse contato, mesmo vc estando muuuito longe (rsrsr…em outro continente) faz muita diferença e parte dessa história. Obrigada de verdade =D

    Küsse =)

    *L

    • Camilla Saloto 17/04/2011 às 11:41 am #

      Larysse, eu estava mesmo pra te escrever, você sumiu! Você me deixou emocionada com seu comentário viu? Eu fico muito feliz por de alguma forma poder dar uma contribuicao na vida até de pessoas que estao taoo longe. Quando comecei com o blog nao imaginava que encontraria pessoas tao bacanas de diversos lugares! Mais que passar informacao até hoje sempre recebi muita com essa troca com vcs, do outro lado do monitor. Some mais nao heim! Como estou em periodo de tcc, o blog agora tem colaboradores que estao sempre mantendo o blog atualizado🙂
      beijos

  6. Fernanda Suguino 30/05/2011 às 8:01 am #

    Cá,
    Não pude deixar de me emocionar ao ler o seu post… Afinal, assim como muitas, também sou (mais) uma brasileira que vive na Alemanha e é realmente impressionante o quanto as circunstâncias nos torna tão iguais a pessoas que, às vezes, nem ao menos conhecemos.
    Viver num mundo paralelo, que não é mais o nosso país, nem o país onde a gente mora, é mesmo uma experiência que faz a gente mudar muitos conceitos, inclusive sobre nós mesmas.
    Apesar do sofrimento, da solidão e do choque cultural, o crescimento que temos é inigualável. Apesar dos pesares, não posso dizer que não está valendo à pena…
    Beijo mil e se cuida!

    • Camilla Saloto 01/06/2011 às 7:41 am #

      Nanda, obrigada seu recado!!! Sim, e é interessante que esse tipo de experiência nos torna parecidos até com pessoas de outros países, com culturas tao diferentes das nossas. Acho que uma das coisas mais importantes, principalmente na fase de adaptacao é nao ficar só e sim procurar outras pessoas em situacao semeslhante para fazer a troca de experiências. Foi o que me ajudou e ajuda até hoje🙂

  7. morandonaalemanha 29/02/2012 às 3:08 pm #

    Camilla,
    Achei bem legal o seu post, me identifiquei bastante!!!
    Um abraço…

  8. Silva 08/03/2012 às 4:42 pm #

    Ola, estou na Alemanha a alguns dias, eu estava muito angustiado antes de ler o seu post porque decidi voltar antes do tempo previsto pelo fato desse choque, estou infeliz e com muitas saudades da minha familia. Já venci muitas coisas na vida, mas infelismente essa situacäo e totalmente nova para mim, voce me ajudou muito, preciso voltar e repensar o meus objetivos.

    • Camilla Saloto 08/03/2012 às 6:06 pm #

      Ei Silva, vc ja voltou ao Brasil? A maior dificuldade aqui é a lingua, a partir do momento que o seu alemao pega no tranco, a vida se facilita. Pensa naquela batida fabula da borboleta, que sofre tanto para sair do casulo, mas quando sai ela bate as asas e voa para longe… Mas sem esse sofrimento inicial, ela nao teria forca depois para sair e voar…

  9. Andreia 11/06/2012 às 8:42 am #

    Olá Camilla

    Encontrei o seu blog por acaso e achei o seu post ótimo.
    Moro há 10 meses na Alemanha e como muitas pessoas vim parar aqui por causa do meu marido.
    Estou terminando o curso de integração (minha prova é na próxima sexta feira 15/06), mas acho que não terei problemas, por a prova desse nível não é tão difícil.
    O que me chamou a atenção no seu post foi o seu comentário sobre a TV alemã, no curso estavamos conversando sobre expectativas e decepções e eu mencionei que a minha maior decepção foi com a televisão.
    Antes de conhecer o meu marido eu não tinha muito conhecimento sobre a Alemanha, só o básico: guerras mundiais, muro de Berlim e ponto. Quando resolvemos que eu iria mudar para Alemanha e que nós nos casaríamos comecei a estudar alemão no Goethe-Institut em São Paulo e vira e mexe os professores comentam sobre o aspecto cultural, os escritores, Schiller, o próprio Goethe, Bach, Beethowen e quando eu chego aqui me deparo com a programação do RTL, Viva, Vox e etc, foi uma decepção total.
    Eu ainda não fui para o Brasil depois que me mudei para cá, mas já escutei muitos relatos como o seu. Já na primeira vez em que eu vim para cá para passar apenas uma semana foi um choque voltar ao Brasil e ao trânsito caótico de SP, logo no aeroporto já comecei a praguejar contra as pessoas que estacionavam os carros em cima do gramado para conseguir um local mais próximo da entrada.
    Em menos de 1 ano considero que já de adaptei um pouco, mas sinto falta do contato com brasileiros, de compartilhar experiências com pessoas que estão passando, ou já passaram por esse momento.
    Eu moro em BW, mas em uma cidade pequena, e nunca conheci nenhum brasileiro por aqui. No curso de integração eu sempre digo que sou a minoria da minoria e nunca tenho ninguém para conversar na minha língua materna como os turcos ou russos.
    Bom, acho que já escrevi demais, rs
    Parabéns pelo blog e boa semana

    • Camilla Saloto 11/06/2012 às 11:09 am #

      Andreia, a TV assusta mesmo né? Mas há canais que salvam, como das Erste, ZDF (que ta caindo de qualidade), ARTE e por aí vai… Quando eu tinha televisao eu gostava também do VOX, poia lá passava alguns filmes clássicos… mas agora não tenho mais essa mordomia… o Pro-7 pra mim era só pra assistir Blockbuster.
      Não se preocupe que você vai conseguir… É triste mesmo estar em um lugar com poucos brasileiros, pois eu acho que o contato ao invés de atrapalhar a aprender alemão, ainda ajuda. Principalmente entre brasileiros que já falam bem o idioma. Aprendi muito com meus amigos e eles me incentivaram muito a não desistir. Não tem nnehuma cidade maior por perto de você que d’e para você ir de vez em quando? Talvez alguma organização brasileira que você possa fazer parte? Dê uma olhadinha se você acha alguma coisa🙂

      beijos e obrigada pelo comentário!

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