>Superioridade brasileira. Se isso fosse na Alemanha…

3 fev

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No Facebook eu sigo várias páginas para me manter informada sobre diversos assuntos. Gosto de me manter informada pela internet, através de fontes oficiais e não oficiais. Uma das páginas que eu sigo é da Confedereção Brasileira de Futebol. Não que eu seja fã de futebol, longe disso aliás, de qualquer forma por que não “curtir” a página?
De repente a página libera a seguinte informação: “Chile luta, se esforça, mas não resiste ao talento e à superioridade brasileira”. Não sei se é pelo fato de estar há algum tempo na Alemanha, só sei que ao ler essa frase pensei que algo assim escrito em alemão seria inconcebível e logo taxado como extrema direito, facismo, nazismo etc.
Eu saí do pc e juro que fiquei rolando na cama a noite pensando nisso. Doida eu? Pode ser! Confesso que não cheguei a muitas conclusões. Desde que cheguei na Alemanha aliás descobri que nós brasileiros somos muito mais patriotas que imaginamos. Quantos brasileiros que eu conheço que não falam que não há lugar melhor no mundo que o Brasil? Um povo cheio de problemas, dificuldades, mas que está sempre feliz, que tem praia, natureza… Sempre ouço isso. E quantas pessoas que me conhecem não me olham com pena? Sim, pena por eu pobrezinha morar em um país como a Alemanha, cheia de nazista, um povo frio, rude, etc. Sempre me perguntam “Você deve ficar doida pra voltar né?” O problema é que não posso dizer nem que sim, nem que não. Gosto do Brasil, mas também gosto da Alemanha. E de ambas as partes é um gostar com olhar bem crítico e realista.
É claro que o artigo se refere à superioridade do talento no futebol. Até porque se fomos pensar em raça superior chegamos a pergunta: Que raça? Afinal nós somos de tudo um pouco. Tribos, povos de todas as partes do mundo que ali estão. e ao mesmo tempo temos uma língua em comum que nos une. Poderíamos ser um país divididos por idiomas como a Índia, como a China ou até mesmo como a Suíça que apesar de ser tão pequeno, tem 4 idiomas! Poderiamos ter chines, italiano, alemão, japonês, dialetos africanos e por aí vai a lista. mas temos o português. e mesmo que haja que fale essas línguas é o português que nos unes como nação. Temos até orgulho do nosso português que se desenvolveu e chega até a influenciar o português de Portugal. Podemos dizer que somos superiores nesse sentido também?
Ao longo do tempo eu descobri que por mais que os anos passem, a ferido do nazismo continua aberta na Alemanha. Dizem que é a ferida do comunismo que está aberta, mas morando em uma região oriental eu posso dizer que não vejo muito problema ao se falar em comunismo aqui, o problema é falar nazismo, todo mundo arregala o olho quando se fala a palavra Hitler. Parece que você está invocando o nome do Mau em pessoa. Por isso os alemães não podem ser patriotas, não podem deixar que alguém perceba que eles tem um mínimo de orgulho da Alemanha. O nazismo transformou o orugulho de ser alemão em um oitavo pecado capital, muito mais grave até do que qualquer outro, pois esse pecado está restrito à apenas um povo.
Você pode falar sobre a superioridade brasileira sem receber crítica por isso, pode falar da superioridade americana, italiana, africana etc, mas é inconcebível falar sobre a superioridade alemã.
Um dos poucos momentos em que os alemães põe para fora o patriotismo é na época de Copa do Mundo, ou Copa das Europas. Como eles põem para fora esse orgulho só a cada 4, ou pelo menos 2 anos, então eles se entregam a exageros. Bandeiras e cores da Alemanha para todo lado. gritam frases que seriam impensáveis em situações normais como “Deutschland über alles – Alemanha acima de tudo ou todos” Ok, eles não pintam as ruas como nós fazemos, até porque eles se permitem ao pecado do orgulho de serem alemães nessa época, mas logo que passa a copa eles correm para esconder todos os vestígios possíveis que poderiam incriminá-los diante dos deuses e uma rua pintada não é fácil de limpar, convenhamos.
Logo tudo volta ao Schweigen, ao silêncio.  No fundo eles se orgulham até mesmo disso e da sua ordem, mas não podem contar isso a ninguém. Desenfeitam os carros, as varandas e enfeitam o coração para la dentro continuarem a festejar.
Então, pensando sobre isso, eu me dei conta que no futebol tudo é permitido. É permitida a “superioridade” brasileira e é permitido a “Alemanha acima de tudo (ou todos?)”.

6 Respostas to “>Superioridade brasileira. Se isso fosse na Alemanha…”

  1. Anonymous 03/02/2011 às 11:22 am #

    >Pena que o Brasil só se orgulha de ser superior em coisas tão.. não importantes, como o futebol. Sentir vergonha pelo povo nao ter direito a educação e morrer literalmente de fome, jamais. O importante é ser superior no futebol né?

  2. Milla 03/02/2011 às 11:39 am #

    >Acho que o brasileiro supervaloriza o futebol. O jogo em si não tem problema, tanto que é um esporte que faz sucesso no mundo todo, porém no Brasil é extremamente exaltado. Uma pena, pois fica menos espaço para investimento em outros esportes…

  3. arlete soffiatti 03/02/2011 às 12:52 pm #

    >Me lembrou uma camiseta que rolou no Brasil uns tempos atras, onde se lia 100%Negro. Se escrevessem 100%Branco ia dar problema.

    • M.R.G 28/10/2011 às 11:12 am #

      Quando se trata de Brasil,sempre dá problemas hahaha

  4. Angela 03/02/2011 às 3:36 pm #

    >Olá Mylla,Bem, como vivo no oeste da Alemanha, sou obrigada a discodar de vc. Aí no leste, o povo realmente deve ser traumatizado em relacao ao nazismo (e o subsequente comunismo após a guerra), pois até a 20 anos atrás, as condicoes de vida na DDR eram realmente terríveis (assim como no resto do bloco comunista). Por essas razoes o povo daí sente-se receoso em demonstrar seu patriotismo por sua pátria e teme em ouvir o nome de Hitler: as feridas do nazismo e do comunismo ainda estao muito abertas por aí e, como disse acima, o povo se sente extremamente inseguro de demonstrar orgulho de seu país. Aqui as coisas já sao muito diferentes: A guerra no oeste, ao contrário do leste, acabou já em 1945, o país foi totalmente reconstruído e as feridas da guerra foram ao longo dos anos lentamente cicatrizando e posso dizer que elas já estao praticamentes cicatrizadas por aqui: o povo sente um orgulho, uma paixao de ser alemao, e isso se observa nao apenas na época de Copa do Mundo ou de Eurocopa (claro, o 'nível de patriotismo' nessas épocas, assim como em qualquer país que vive e respira futebol, é extremamente elevado), mas também no dia-a-dia, com bandeiras do país hasteadas no jardim, ou sendo com bandeirinhas alemas penduradas nos carros, ou mesmo no ar de indisfarcado orgulho quando um estado qualquer mostra que a economia alema está para ser maior do que as economias inglesas e francesas SOMADAS. Entao, querida Mylla, pelo menos aonde eu moro, o povo sente muito orgulho de ser alemao e nao tem medo de se sentir, mesmo que involuntariamente, um pouquinho 'superior' em relacao aos seus rivais europeus. Ah, em relacao a mencao do nome de Hitler, este é usado com naturidade aqui, seja em escolas, reportagens de revista (A capa da revista Spiegel de umas semanas atrás mostrava a imagem do braco direito de Hitler e seu ministro da Propaganda Joseph Goebbels e uma longa e interessante reportagem sobre esse personagem deste triste período da história alema e mundial se seguia.) ou até mesmo para tirar sarro ou contar piadas sobre ele, pois, como disse acima: esse perído foi extremamente triste e trágico para a Alemanha, mas ele é passado e o passado pertence apenas aos livros de história. O povo ocidental esqueceu deste passado e acredito eu que essas terríveis lembracao dissiparao-se do povo oriental ao longo dos anos para entao comecar a sentir um real orgulho de sua pátria e a focar exclusivamente no futuro.Beijos

  5. Milla 03/02/2011 às 4:45 pm #

    >Ei Ângela, obrigada pela participacao! Pois é, eu moro na parte que foi da DDR, mas como aqui é um cidade estudantil. Falar o nome do Hitler na rua aqui é certeza de ser olhado de cara feia, talvez por causa da universidade e a tentativa de desassociar a Alemanha no nazismo. Ou talvez por causa do grupo neonazista ser mais forte por essas bandas… Eu acho mesmo interessante como as revistas e a TV (quase toda noite vc encontra um documentario sobre o nazismo em algum canal) trabalha com o tema normalmente e que se você fala sobre isso aqui as pessoas se sentem incomodadas. Um amigo meu estava perguntando coisas da guerra e tal pra uma alemã daqui e ela o perguntou o porquê dele querer saber disso. Mas foi um caso e não se dá pra tirar de um caso uma regra geral né?De qualquer forma eu tenho um professor aqui que vem de Hessen e ele é extremamente arrogante, sempre falando mal de outros países, povos e civilizações. Dele se dá pra tirar a diferença entre os ocidentais e os orientais. Mais uma vez obrigada pela sua colocação :)Arlete, eu me lembro disso, se não me engano um rapaz vestiu uma camisa "100% branco" e foi preso. Isso deu pano pra manga…

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